Mais de 3,1 mil jumentos foram transportados do Piauí para frigoríficos na Bahia ao longo de 2026, integrando uma cadeia produtiva voltada majoritariamente ao mercado chinês. A atividade, que utiliza a pele dos animais para a produção de uma gelatina tradicional conhecida como ejiao, enfrenta oposição de pesquisadores e impasses no Poder Judiciário devido a preocupações com o bem-estar animal e o risco de extinção da espécie no Nordeste.
Logística e fiscalização
Diferente de outros setores pecuários, o Piauí não possui criações voltadas ao abate. Segundo a Agência de Defesa Agropecuária do Piauí (Adapi), os animais são adquiridos em diversos municípios e concentrados em propriedades rurais até que o volume permita o transporte interestadual. A movimentação depende da emissão da Guia de Trânsito Animal (GTA), documento que registra origem, destino e finalidade do transporte.
Dados da Adapi indicam os principais municípios de origem em 2026:
- Marcos Parente: 1.570 animais
- Floriano: 1.405 animais
- São Raimundo Nonato: 147 animais
- Campo Maior: 50 animais
Impacto ambiental e científico
Especialistas alertam que o abate em larga escala pode levar ao desaparecimento do jumento nordestino. Pierre Barnabé Escodro, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e CEO do Grupequi-Ufal, aponta que estudos indicam a ausência de benefícios econômicos relevantes para o Brasil e questiona a eficácia medicinal do ejiao, que carece de comprovação científica.
O pesquisador afirmou: Se essa projeção continuar, até 2030 poderemos não ter mais jumentos nordestinos no Brasil. Não estamos falando das raças Pêga ou Brasileira, mas justamente do jumento nordestino, que é o animal abatido na Bahia.
Disputas judiciais e legislativas
Em abril de 2026, a 1ª Vara Federal da Seção Judiciária da Bahia determinou a interrupção da captura, compra e abate de jumentos no estado, citando falhas de manejo e maus-tratos. Contudo, frigoríficos habilitados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para exportação permanecem operando, mantendo o impasse legal.
Atualmente, tramitam no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 2.387/2022 e, na Assembleia Legislativa da Bahia, o Projeto de Lei nº 24.465/2022, ambos visando restringir ou proibir a prática. Como alternativa, pesquisadores sugerem a reinserção do jumento na agricultura familiar e o reconhecimento oficial do animal como patrimônio histórico e cultural do Nordeste.
