Médicos, clínicas e farmácias de manipulação têm contornado a proibição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o uso de implantes hormonais com fins estéticos. O setor passou a comercializar os chamados “pellets subcutâneos” sob a justificativa de tratamento para condições clínicas, como endometriose, síndrome dos ovários policísticos e menopausa, apesar da ausência de evidências científicas robustas que comprovem a eficácia dos dispositivos para essas finalidades.
O funcionamento do mercado
O ecossistema é sustentado por uma rede que conecta a prescrição médica, cursos de capacitação e farmácias de manipulação. A Anvisa proibiu, em outubro de 2024, a comercialização e o uso desses implantes manipulados, mas reviu a decisão pouco mais de um mês depois. A nova norma manteve a proibição para fins estéticos, mas abriu margem para a manipulação sob condições restritas para outros tratamentos, gerando um espaço para a atual comercialização.
Relatos e documentos, incluindo notas fiscais, apontam para a produção em escala industrial de implantes, prática proibida para farmácias de manipulação, que devem operar sob demanda individualizada. O Conselho Federal de Medicina (CFM) classifica a triangulação entre médicos, cursos e farmácias como um potencial conflito de interesses e infração ética, especialmente quando há participação do prescritor na venda ou promoção dos produtos.
Risco à saúde e questionamentos éticos
Entidades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) alertam que esses implantes, frequentemente contendo substâncias como gestrinona, oxandrolona e testosterona, não possuem bula ou dados consistentes de segurança. Complicações graves, como infarto, trombose e acidente vascular cerebral (AVC), foram relatadas por pacientes.
Em um caso que tramitou na Justiça de São Paulo, uma paciente obteve indenização após sofrer infarto renal associado à trombose após a colocação de um implante hormonal. A perícia judicial confirmou o nexo causal entre o uso do dispositivo e o quadro grave de saúde.
Estratégias de venda e o papel das redes sociais
A investigação aponta que profissionais utilizam redes sociais para associar alterações hormonais a queixas de vitalidade, libido e desempenho físico, transformando inseguranças femininas em argumentos comerciais. Cursos voltados a médicos ensinam não apenas a parte técnica, mas também estratégias de faturamento, orientando a abordagem de temas íntimos das pacientes para converter a venda do “protocolo”.
Posicionamentos
Procuradas, as empresas e profissionais citados negaram irregularidades. A Elmeco e a Unikka Pharma afirmaram seguir as normas sanitárias vigentes. Os médicos envolvidos ressaltaram que suas atividades são educacionais, pautadas em critérios clínicos e que não há venda casada. O CFM informou que as denúncias sobre infrações éticas envolvendo os casos mencionados serão investigadas após a publicação desta reportagem.






